• Moda Masculina
    7 de abril de 2014 | Por Juan Alves

    Desfiles não salvarão a moda brasileira - HQSC 1

    A produção da indústria de moda brasileira ainda patina no lodaçal da crise econômica que, desde 2008, assola o chão de fábrica nacional. As indústrias de produção física de têxteis, vestuário e acessórios, calçados e artigos de couro marcaram decréscimo segundo os dados do IBGE no ano passado. Em 2014 a produção física se elevou no comparativo de janeiro a fevereiro e marca leve alta no acumulado de 12 meses para a indústria que ainda é assombrada pelo mal tempo.



    Em 2014, segundo o Pyxis Consumo, a estimativa é que o brasileiro gaste em consumo de bens de moda R$810/per capita, um aumento de 3% comparado à estimativa de 2013. No entanto, se posta ao lado da inflação do ano anterior, acelerados 5,91%, o crescimento é insuficiente, em outras palavras, a falta de crescimento real é preocupante tanto para a indústria, quanto para o varejo.

    Há um tema presente na fala de empresários, estilistas, operários e outros envolvidos com a moda brasileira que justificaria, em partes, o atual cenário: competitividade com as marcas estrangeiras – um fragmento da ostentação enraizada há séculos na cultural nacional. Em virtude do problema, meses antes do estouro da crise mundial, o Brasil aumentou a taxa de impostos sobre importações. A estratégia protecionista é uma faca de dois gumes para a moda nacional tão dependente de importações de material para confecção. Ainda sobre a atuação da indústria local atua uma alta carga tributária e a total falta de iniciativa governamental no que toca o desenvolvimento, ou mesmo a sobrevivência, do setor no país.

    Existem semanas de moda por todo o território nacional. São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Belo Horizonte e Brasília, só para citar algumas das cidades envolvidas, além de eventos de menor porte como desfiles de shoppings ou conjuntos de lojas e marcas segmentadas. O desfile é um espaço para criar desejo no consumidor, um momento de inserir o possível cliente dentro da atmosfera da coleção (ou da história que se conta dela). Com tantas semanas de moda é como se empregássemos todos os nossos esforços na criação de vitrines sem a preocupação de saber quem vai entrar na loja.

    É curioso pensar que uma marca desembolsa milhares de reais sem a garantia de qualquer retorno concreto, além da mídia. Ou seja, o desfile ou semana de moda como um agente isolado é o mesmo que anunciar sua marca em um único outdoor em uma cidade onde você não tem loja. Para se ter uma ideia, das 32 marcas participantes da temporada de verão 2014/15 do SPFW – que acaba de chegar ao fim -, apenas 8 têm loja online própria, outras 7 utilizam de plataformas, como a Shop2gether, a Dafiti e a Farfetch, para comercializarem seus produtos na web. 3 marcas não possuem página no Facebook e outras 3 não atualizam suas páginas há pelo menos um mês. Também 3 marcas possuem sites inativos durante o período da noite e 2 marcas não fornecem um único endereço de loja física ou online.

    Desfiles não salvarão a moda brasileira - HQSC

    Quem assiste aos desfiles pela internet fora do eixo Rio-SP não tem acesso ao produto apresentado na “vitrine”. Não se pode dizer que se trata exclusivamente de marcas sob medida, quase todo mundo tem uma camiseta para vender, certo? “Falta investimento por causa dos impostos, por causa da China…”. Falta também interesse das marcas em ver o óbvio, uma vez que estamos comentando unicamente as envolvidas nas passarelas do SPFW e que, em teoria, são as marcas mais estruturadas do país.

    No primeiro semestre de 2013, as vendas online de moda – compreendido aqui como a comercialização de vestuário e acessórios – foram responsáveis por 13,7% do volume de vendas totais na internet brasileira, segundo pesquisa do E-bit. De acordo com o estudo da Rakuten também no ano passado, 18,8% dos brasileiros compram mais pela internet do que em lojas físicas e 34% da população nacional já compra roupa pela web. Por último, a Hi-Mídia e a M.Sense analisaram o mercado de vendas mobile no Brasil e 1 a cada 3 usuários de smartphone declarou já ter usado o método de compra. Se ainda não ficou perfeitamente claro, o investimento por parte das marcas de moda na venda online é necessário e urgente.

    Outro dado interessante de se observar é que a produção física apontada pelo IBGE (supracitada) se refere exclusivamente ao uso feminino. Dados do Censo 2010 indicam que cerca de 6,6 milhões de homens economicamente ativos têm um rendimento de mais de 5 salários mínimos. Quem vende roupas para eles? Ou melhor, quem vende moda para eles? A mesma pesquisa do E-bit (acima) também mostra que, entre aqueles que usaram a internet pela primeira vez para realizar uma compra em 2013, 45% são homens. É só juntar os dados!

    “Mas o homem não deseja moda”. Bom, as hoje consumidoras de animal print não desejaram os padrões inspirados em animais antes de vê-los na rua. A educação do consumidor continua a ser a grande arma da indústria de moda contra o cenário tempestuoso pelo qual tem passado. A moda para homens continua a ser desprezada, assim como o próprio público masculino, em uma indústria que patina para se reerguer e deixa de lado mais de 6 milhões de consumidores. Ao investir em vendas online, aproximação com o cliente de todo o país e na confecção masculina de qualidade, a indústria brasileira poderia ter um sopro de vivacidade considerável. Não adianta querer vender mais e mais para um setor já tão saturado, assim como não adianta esperar por alguma iniciativa governamental contando que esta resolverá todos os problemas da indústria e varejo de moda. Entre os cursos oferecidos no Brasil, apenas um é de graduação em negócios de moda – cuja mensalidade custa o mesmo que um curso da área da saúde aqui no sul – em contraponto às dezenas de graduações em design de moda. Como viverá o negócio nas próximas gerações? Dependeremos exclusivamente da importação de profissionais?

    Desfiles são essenciais em uma indústria efervescente, mas sem o investimento necessário das marcas essa publicidade é jogada no lixo. Em alguns momentos ao se analisar a moda brasileira o que se vê é uma desejo nonsense de sermos Coco Chanel. Queremos que o país todo viaje até a Oscar Freire para comprar um vestidinho preto de 3 mil reais, mas adivinha?! Tem mais loja fechando por lá do que bolsa fake da Louis Vuitton passando na frente dos tapumes. É preciso olhar para o futuro!

      Gregory Martins

    Editor TrendCoffee.cc
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    Comentários Comentários
    3 comentários
    Vine, em 8 de abril de 2014

    Excelente post Juan! É preciso saber olhar para além do que se vê. Abraços!


    Germano Hauschild, em 8 de abril de 2014

    Ótimo post!

    Abriu meus olhos pra uma realidade que eu não enxergava antes e que é realmente alarmante!

     

    Nós assistimos aos desfiles, achamos tudo lindo, mas não paramos pra pensar no que acontece por trás, nas causas e consequências daquilo.

    Foi realmente inspirador ler esse post. Parabéns!

     

    Confesso que fiquei um pouco deprimido depois de ler, mas é valido hahaha


    Lucas Maronesi, em 8 de abril de 2014

    Esse texto é para se aplaudir em pé. De um olhar extremamente "entendedor". Otimas palavras, concordo com100% do que foi dito, Também penso que essas marcas gastam uma fortuna na semana da moda, e infelizmente abrangem a minoria da população, acredito que a melhor maneira como foi dita e o que está ditando nos ultimos anos é, a venda online.

    Parabéns pelo texto.